quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Pitanga

Preparei-lhe um recado.
Fiz um mapa em minha cabeça.
Coloquei em um envelope não o meu mundo, mas uma das minhas fontes de comunicação e, junto a ela, um bilhete.

"Botão central. 1992. 7. Hoje, às 13h42"

              Lá estava sua caixa de saída.
              Fiz o que ela achou que eu nunca fazia.
                                     
                                   "Você nunca o deixou escapar como eu deixei. Não fui à despedida dele e eu quem passei noites e mais noites chorando, morrendo de saudade e sonhando em ver, abraçar e beijá-lo, escrevendo para ele. Ele foi o único que fez meu coração parar... O único. Ele foi o único que já teve meu coração mesmo... Os outros foram paliativos da solidão. O único que fez minha respiração parar... Que me prendeu, me teve. Ele até sabia, mas com a imaturidade da época, me fez muito mal. Não ligo se vai ser à moda antiga ou de um jeito moderno. Ligo para se vou, ao menos uma vez, tocar meus lábios nos dele... Se vou fazer bem a ele... Se vou prender a atenção dele... Se, ao menos uma vez, tudo o que sonhei acontecerá..."

              Isso sempre esteve lá... 


Estive todo o fim de semana sem meu celular... Mas tudo bem. Ele poderia aproveitar cada pedacinho de outra coisa que era minha e estava sob sua posse. Poderia passar os dedos por aquelas teclas em que toquei tantas vezes.
Manhã de segunda-feira. Eu estava tranquila. Sempre há aquele pensamento: Ah, hoje deveria ser feriado, ou, não deveria ter aula, mas...
Cheguei e me acomodei em minha cadeira. Era um dia normal.
Tocou.
Os alunos demoraram um pouco para entrarem na sala, sentarem e estarem prontos para a aula. Sua cadeira estava vazia. A primeira aula não começou importante e pelo ritmo que ia, terminaria sem importância. O porteiro me chamou.
O corredor tinha um cheiro incomum de flores


– Ei!
– Ah, oi.
– Toma – tinha meu celular de volta.

– Então, eu preciso assistir à aula...
– Ok. 

Enquanto eu voltava para a sala, ouvia-o me seguir. Toquei a maçaneta, e ele permaneceu parado, observando-me. Abri a porta. Senti um toque macio em minha mão, e ele me puxou para si... Deu-me o abraço que estive esperando todo o tempo. E acariciou meus cabelos, puxou meu rosto para junto do seu e, finalmente, estivemos tão perto quanto desejei. Como se fosse o primeiro. Ficamos abraçados por mais algum tempo... Como se fosse preencher a falta que ambos fizeram.

– Por que você guardou isso?
– Não guardei... Eu te falei, mas você não deu importância.
– Desculpe-me.
– Você foi o primeiro e único que amei.
– Aonde estão as cartas? 
– Guardadas em algum caderno que suportou meu desabafo.
– E as lágrimas?
– Estarão sempre em algum lugar dentro de mim.

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